Você já ouviu falar de constrangimento pedagógico? Sabe o que é e como utilizá-lo diante dos preconceitos de cada dia

Impossível falar sobre constrangimento pedagógico sem mencionar o presidente da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé. Preto e, não, “Pedro”, como ele costuma ironizar, possui uma reflexão muito interessante sobre o racismo estrutural; algo que ele chama de racismo à brasileira.

“Todo mundo assume que ele existe, mas ninguém assume que pratica”. Essa é a definição do conceito, conforme explica durante o  programa Roda Viva. E foi a partir dessa leitura social sobre o racismo no Brasil que ele deu origem a estratégia de constrangimento pedagógico

No entanto, antes de falar sobre essa ferramenta, bem como sobre quem é Preto Zezé, saiba que, neste texto, o termo não possui uma associação direta com a escola, tampouco com educadores e, sim, com a Educação. Em outras palavras, com a forma de transformar um estigma em carisma. 

Na verdade, quando Zezé fala sobre constrangimento pedagógico, ele propõe uma reflexão sobre uma “segunda via” de combate ao racismo no Brasil. Isto é, uma estratégia na luta antirracista que propõe que uma pessoa preta não viva a exclusão racial exclusivamente com sofrimento, revolta, ódio e dor. 

E aí, você pode pensar, principalmente como uma pessoa preta, se isso pode ser feito. Afinal, estamos falando de um país em que, em 2018, 75,7% das vítimas de homicídio eram pretas, segundo dados do El País.

Para Preto Zezé, o caminho é apostar em “uma categoria debochada e irônica com pitadas de criação em situações de reciprocidade da violência sofrida”, conforme explica ao Diário do Nordeste.

Calma, vamos explicar melhor.

Afinal, o que é constrangimento pedagógico?

Em síntese, o constrangimento pedagógico funciona como uma forma de quebrar práticas racistas do cotidiano, criadas majoritariamente por pessoas brancas, através do constrangimento. Ou seja, é uma forma de ironizar situações de preconceito racial. 

Para tanto, Preto Zezé sugere uma articulação um tanto peculiar, que abre espaço para a ironia e o deboche, reduzindo, assim, a dor que a pessoa preta passa diante de uma fala ou atitude racista.

Inclusive, está aí uma boa definição: constrangimento pedagógico é uma forma de fazer com que pessoas brancas, ditas não racistas, tenham que lidar com o fato de que, sim, fomentam o racismo à brasileira - mesmo quando se autointitulam “não racistas”.   

O conceito ainda não faz muito sentido para você? 

Pois bem, ao contar uma anedota ao G1, Preto Zezé deixa claro qual é o objetivo da estratégia do constrangimento pedagógico perante a descriminação racial.

Enquanto fazia compras dentro de um supermercado, ele e um amigo foram taxados como funcionários e abordados por uma senhora branca, mesmo dando inúmeros indícios de que, assim como ela, eram meros consumidores. 

Ao passo que o amigo se exalta, e com razão, Preto vê a situação como uma oportunidade de exercer o constrangimento pedagógico.  À vista disso, eis o momento que entra a ironia e as “pitadas de criação”, conforme mencionado acima.

Preto Zezé resolve dizer a senhora que, como comprou o supermercado recentemente, ainda não decorou onde estão determinados ítens. Logo, sugere que a mulher busque por um de seus funcionários para auxiliá-la. Frente a situação, a senhora demonstra completo constrangimento e pede desculpas pela confusão.

Para conferir a história na íntegra, clique aqui

Enfim, ao escancarar o racismo à Brasileira, através do constrangimento, Preto Zezé comprova que, sim, há inúmeras pessoas dispostas a admitir o racismo social estrutural em que vivemos. 

No entanto, quando precisam admitir que estão à mercê de serem racistas, produzirem certas atitudes e, o mais importante, que desejam adentrar em um processo de evolução, a conversa é outra.  

“O constrangimento pedagógico nos conduz por um caminho em que desarmamos os estereótipos e geramos uma empatia de choque que nos aproxima uns dos outros, deixando sinalizações que não permitirão que o indivíduo manifeste sua escrotidão racista”, afirma Preto Zezé.

Quem é Preto Zezé?

Depois de explicar sobre constrangimento pedagógico, nada mais justo do que dar o devido valor à história de Preto Zezé que, disposto a construir uma outra via para encarar a brutalidade do racismo, mudou até de nome.

Nascido no Ceará, antes de ser Preto Zezé, seu nome era Francisco José Pereira de Lima. E utilizar a palavra “Preto” no nome não foi por acaso, tampouco por resquícios de apelidos de infância.   

Movido pela vontade de fazer com que as pessoas enxergassem-o apenas como uma pessoa preta, sem que isso o desqualificasse, Francisco tornou-se Preto. Ou seja, uma pessoa que existe, que não está fadado a viver uma realidade desigual e desfavorável, cercada por violência.  

E quando tornou-se Preto, exigiu que as pessoas, mesmo com certo desconforto e constrangimento, o chamassem assim. Segundo ele, muitas vezes foi chamado de “Pedro” de forma intencional, mas ele fazia questão de reafirmar: “é Preto”. 

Hoje, além de ser o presidente da Central Única das Favelas, entidade que atua desde o final dos anos 90 em cinco mil favelas do Brasil, o ex-lavador de carros é uma das principais vozes do movimento antirracista nacional. 

Por esse motivo, há sempre o que aprender com Preto. Ao assistir ou ler suas entrevistas, a impressão que se tem é a de que ele é um grande decodificador do conhecimento acadêmico, sempre tão excludente, por fazer questão de ser compreendido. 

Ademais, Preto Zezé é um otimista e parece batalhar para continuar assim, mesmo enxergando a realidade nefasta em que estamos inseridos.  

E aí, gostou de saber mais sobre constrangimento pedagógico? Aproveite para descobrir o que é interseccionalidade e explorar o blog da Fleurity!

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